
Quando era pequena, adorava andar de pé descalço. Gostava de sentir o fofinho do tapete, as cócegas da alcatifa, o frio do mosaico, o quente do chão ao sol, a dor das pedrinhas no caminho de terra batida… Mas, quando era pequena, não sabia o significado da expressão ‘pé descalço’ e para mim, todas as outras crianças, os adultos e os velhinhos, podiam tirar as meias e os sapatos, descalças as chinelas e andar descalços. Para mim, ao contrário do que as pessoas afirmam, o ‘fixe’ era andar com o pé descalço. A minha inocência não me permitia acreditar em desigualdades sociais, em probreza e em mendicidade.
Eu, na minha pequenez, achava libertador o pé descalço no chão e considerava sortudos todos os ‘pé descalço’ que encontrava na rua.
Mas eu, que hoje ando com meia e sapato, que trago o pé tapado ao frio e escondido ao calor, era inócua.