segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Mãe de pai

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.



Fernando Pessoa.





Este poema lembrou-me desesperadamente a minha avó. Ela também cantava enquanto ceifava, semeava, plantava, cultivava para os outros e para viver. Cantava para espantar a dor, o cansaço e a dureza da vida. Cantava para lembrar os filhos que estava ali, para lembrar a vida que ainda teria de esperar por ela. E eu, que agora a vejo cantar para viver, para recordar a tristeza da vida, vejo como sofre por já não viver vivendo, por já não esperar nada...


3 comentários:

  1. Mas talvez a tua avó seja/tenha sido feliz, enquanto tu, consciente de que ela não tinha razões para cantar ou para sorrir, és/eras profundamente infeliz.

    Temos que começar a desejar o impossíveL: ser umas inconscientes porque ver o sofrimento dos outros dói mais do que sentir o nosso sofrimento.

    E com isto tudo: escrever no blog, comentar e tal e tal, já temos o poema estudadito.

    A isto é que eu chamo eficiência.

    Beijinhos*

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  2. Adoro os meus avós, entristece-me não estarem mais perto.
    Entrristece-me não estar mais com eles...

    Lindo Post, parabéns.

    bjs

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  3. Uma possível solução: Canta tu para ela. Ou então canta com ela.

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